terça-feira, 12 de fevereiro de 2013



A importância de uma janela

Os rituais e manias de escritores costumam chamar a atenção de leitores ( e de wannabe escritores como yo). Eu, por exemplo, adorei saber que Lygia Fagundes Telles (sou fã dela) escreve com música clássica; tampouco eu consigo concentrar-me com palavras além das que pretendo colocar no papel.  Há ainda os escritores que escrevem à mão!, os que precisam tomar um café antes ou um vinho durante... e por aí vai. 

Sou a favor de manter um rotina, mas não necessariamente uma rotina organizada. Quando escrevo, sou bem caótica.  Não tenho horário. A princípio isso me preocupava, achava que todo escritor tinha uma rotina e a seguia diretinho. Bom, não sou escritora; mas como amadora que escreveu dois livros, confesso que o meu espírito é teimoso. Não sigo um processo, mas forço-me a escrever quase todos os dias ou a exercitar o pensamento e a palavra. Escrever exige alma, suor, lágrima e coração sem preconceitos. Cheio de amor. 

Nas madrugadas eu não consigo escrever um ponto e vírgula. Sou do dia. E preciso de uma janela. 


A janela -  Quando me mudei para o flat onde moro em Londres, cismei que queria uma mesa no escritório. Comprei uma baratinha (e simpática, encaixou-se humildemente no canto da parede, sem quase incomodar o espaço do meu marido). Em cima dela coloquei uma tela de computador grande (=miopia), um porta-retatro, alguns livros em volta. Passei uns meses admirando a mesinha, a nova cadeira laranja“larangiratória”, uma quase palavra. Mas não me sentava ali para escrever.
Falta algo..., pensei.
Uma janela! 

Comecei, então, a usar a mesa da sala-cozinha, o meu flat é pequeno. Olhei para a ela, resumida na sua função de ser mesa: aguentando o tédio das manhãs rotineiras, quando me sentava para o café da manhã sempre igual: desânimo. Além de aturar, em cima dela, o peso de um relógio de parede que nunca funcionou. Parêntesis: (Gosto dos relógios parados. Nenhum relógio funciona na minha casa. O da sala, o da cozinha, o do fogão, o do dvd... estão todos parados num tempo que existe, existe onde?). Enfim, a localização da nova mesinha era perfeita, no canto da parede, entre a sala e a cozinha, e de frente para duas janelas lindas (e sujas). 

Dei-lhe outro sentido, é uma mesa de escrever. Em retorno, ela me “deu” inspiração para rascunhar ideias. E tem ela certo charme, principalmente quando coloco um vaso com flores em cima .  Aos poucos reuni meus papeis, livros, laptop... e raramente a utilizamos para as refeições.
Hoje, ao invés de olhar fixo para uma lâmpada eu olho através da janela e busco o meu pensamento. 

O que vejo lá fora? Hmm... Além da estação de trem e dos edíficios marrons... Vejo pássaros que se confundem como suicidas no topo dos edifícios, esquilos correndo pelo pouco verde... ao redor, tudo é concreto. 

No inverno(now)a paisagem é mais dramática, o colorido se perde na fumaça do céu, os dias são curtos e intensos. Os pássaros não cantam no inverno, confusos com a escuridão das manhãs e vêm fazer sereneta à noite. Um pássaro confuso ainda assim canta. 

Raramente vejo pessoas perambulando por aqui, moro num bairro tranquilo. Mas escuto gritos de casais que às vezes “se pegam” na estação, geralmente bêbados. Escuto conversas em outros idiomas - e se os entendesse me contariam qualquer banalidade que não desejo saber. Vejo os dias passando, mas o meu tempo é diferente. É de quem ainda não chegou ao seu destino.

Não sou voyeur, o que busco através da janela é a imaginação da vida. Não quero nenhuma cópia. A importância de uma janela, é a narração silenciosa que ela oferece. A minha janela tem olhos de alma. Os meus olhos, a imagem do coração.


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